[#14] Responsabilidade(s) no novo ecossistema mediático
Algoritmos opacos, desinformação com impacto real, pressão sobre os media e novos dilemas da IA. O espaço público enfrenta desafios que exigem mais transparência e responsabilidade.
🖊️Bloco de Notas | Durante algum tempo, na idade da inocência, convencemo-nos de que as redes sociais eram uma espécie de ‘espelho’ da humanidade, estafetas da informação, e praças públicas digitais onde o fluxo corria livre, sem barreiras, sem intermediários. Percebemos agora, com alguns anos disto, que as metáforas, embora simpáticas, têm pouca correspondência com a realidade.
Há alguém, ou algo, que decide sempre o que chega aos nossos olhos, através do nosso feed. Existe, e perdoem-me a expressão, uma ‘mão invisível’ que escolhe o que aparece ou fica oculto, a ordem das histórias, o que merece um megafone ou cai no esquecimento. Não há, no processo algorítmico, qualquer neutralidade. Pelo contrário, este organiza-se a partir de uma arquitetura que maximiza o tempo de ecrã, visando exclusivamente a conversão em receita.
Os editores do ‘antigamente’ tinham um rosto, um nome e uma morada. Seguiam códigos de ética e, quando erravam ou descumpriam, podiam ser confrontados e responsabilizados. Os algoritmos são opacos e impunes, operam numa zona sombra, chamando a si boa parte do debate público, mas sem nunca terem de explicar os seus critérios ou lidarem com o impacto social, político e cultural das suas ações.
Na “economia da atenção”, a nossa indignação é a moeda mais valiosa. O medo e o escândalo são bons para o negócio. Viajam mais depressa, chegam mais longe. O resultado é uma praça pública que parece pender para o abismo, onde o equilíbrio e o bom senso quase desapareceram.
Tardamos em iniciar - a sério e com consequência, quero eu dizer - o debate sobre a necessidade de exigirmos que as gigantescas plataformas sejam obrigadas a cumprir níveis de responsabilidade e responsabilização semelhantes àqueles que sempre imputámos aos media ‘tradicionais’.
É uma frase batida, mas nem por isso menos verdadeira: a democracia não sobrevive à intransparência. Se as decisões que moldam o que pensamos e como agimos coletivamente continuarem a ser tomadas (ou, pelo menos, influenciadas) por sistemas que ninguém elegeu e que quase ninguém compreende, nunca mais sairemos do buraco no qual parece estarmos metidos
Sem tempo ou paciência para ler? Pode ouvir.
🎧 Opção 1: Uma análise detalhada dos temas da edição, através da conversa entre dois anfitriões virtuais.
🎧 Opção 2: Um resumo breve com os principais tópicos.
As versões áudio são geradas automaticamente por IA, através do serviço NotebookLM, suportado por Gemini. A IA pode cometer erros. Verifique informações importantes.
Moçambique | desinformação
Desinformação sobre cólera resulta em reféns e encerramento de centro de saúde
Um centro de saúde no distrito de Monapo, em Moçambique, esteve na última semana encerrado depois de profissionais de saúde terem sido feitos reféns por membros da comunidade, na sequência de informações falsas de que estariam a propagar cólera.
Situação confirmada pela Diretora Provincial de Saúde de Nampula, citada pela imprensa moçambicana. O incidente terá sido motivado por focos de desinformação que têm dificultado o controlo da doença.
Uma equipa médica, acompanhada pela Polícia da República de Moçambique (PRM), deslocou-se ao local para dialogar com a comunidade e libertar os profissionais.
Este não é o primeiro caso de desinformação sobre cólera em Nampula. Já este ano, as autoridades sanitárias provinciais haviam admitido que a desinformação é uma barreira no combate à doença.
“É preciso reconhecer que, infelizmente, os atores comunitários, como são os casos dos líderes comunitários, os ativistas e os agentes polivalentes têm sido perseguidos nas comunidades, têm sido apedrejados” - Geraldino Avalinho médico chefe provincial
📚Fontes/ler mais:
[Jornal Rigor] Rumores sobre cólera resultam em reféns e encerramento de centro de saúde em Monapo
[Lusa] Desinformação sobre cólera leva a perseguições a agentes da saúde em Moçambique - Governo
Portugal | redes sociais
Influenciadores lucram com perdas de seguidores em casinos ilegais
Uma investigação do jornal Público revela que influenciadores digitais em Portugal e outros países europeus estão a utilizar as suas plataformas para promover casinos online que operam de forma ilegal. O esquema baseia-se num modelo de afiliação em que o criador de conteúdos recebe por cada novo jogador, além de uma percentagem direta sobre as perdas líquidas dos seguidores que angariou para a plataforma.
Através da partilha de vídeos que mostram ganhos fáceis (muitas vezes simulados em contas de demonstração), os influenciadores incentivam comunidades jovens a apostar dinheiro em sites sem licença.
O fenómeno levanta graves questões éticas e legais, uma vez que estas plataformas operam fora do radar da autoridade tributária e não possuem mecanismos de proteção.
📚Fontes/ler mais:
[Público] Influenciadores digitais lucram com perdas de jogadores em casinos ilegais
[TVI] O esquema dos casinos ilegais explicado por um influencer que fatura 10 mil euros por mês
Brasil | inteligência artificial
Globo cria núcleo para planear uso de IA no jornalismo
O Grupo Globo, no Brasil, anunciou a 19 de fevereiro a criação de um núcleo de estratégia dedicado exclusivamente a planear o uso da Inteligência Artificial (IA) nas suas operações jornalísticas. A iniciativa visa identificar oportunidades para automatizar processos, melhorar a eficiência na produção de conteúdos e explorar novas formas de distribuição de informação. Segundo a empresa, este grupo de trabalho terá uma abordagem transversal.
“Mapear e solucionar gargalos tecnológicos e organizacionais, atuando em parceria com outras áreas da empresa, e com as equipes de cada produto, sem interferir na autonomia dos times” - Ricardo Villela, diretor de jornalismo da Globo
A criação deste núcleo surge num momento em que os media globais debatem o equilíbrio entre inovação tecnológica e manutenção do rigor editorial.
📚Fontes/ler mais:
[Portal dos Jornalistas] Globo cria núcleo de estratégia para planejar uso de IA no jornalismo
Cabo Verde | desinformação
Antigo presidente cabo-verdiano destaca papel dos media no combate à manipulação
O ex-Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, apela a um ambiente de liberdade e transparência nas próximas eleições no país, destacando o papel dos media no combate à manipulação nas redes sociais.
Para o antigo chefe de Estado, os órgãos de comunicação social têm um papel central no processo eleitoral, enquanto intermediários das mensagens transmitidas pelos atores políticos.
“Vivemos, também em Cabo Verde, uma época de proliferação da mentira, em que é relativizada a verdade dos factos, há a distorção completa dos factos, narrativas completamente falsas e, portanto, cabe ao jornalismo, aos media, fazer essa regulação” - Jorge Carlos Fonseca
Fonseca entende que as redes sociais são “pouco controladas” e que o aparelho jurídico cabo-verdiano não dispõe de instrumentos de investigação e combate adequados à atual realidade. Também defende uma aposta na pedagogia.
Em 2026, Cabo Verde terá eleições legislativas e presidenciais, em maio e outubro, respetivamente.
📚Fontes/ler mais:
[Inforpress] Jorge Carlos Fonseca destaca papel dos média no combate à manipulação e distorção nas redes sociais
Brasil | liberdade de expressão
Liberdade tem limites, recorda novo reitor da USP
O novo reitor da Universidade de São Paulo, no Brasil, considera que a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são princípios basilares da vida académica e que a universidade deve ser um espaço de debate plural, questionamento crítico, e convivência entre diferentes perspectivas.
Para Aluísio Cotrim, que falava em entrevista à revista Veja, nos corredores da universidade deve existir um ambiente respeitoso, tolerante e acolhedor.
“Claro, liberdade vem com limites. Entendemos que o exercício da autonomia só é possível quando há respeito mútuo (…). A USP repudia qualquer tipo de violência que imponha restrições ao exercício desta liberdade de opinião dentro dos limites da convivência republicana” - Aluísio Cotrim
📚Fontes/ler mais:
[Veja] “Liberdade vem com limites”, diz Aluísio Cotrim Segurado, novo reitor da USP
[Jornal da USP] “Este é o momento de convidar todas e todos para avançar na construção da Universidade que queremos”
🔗Outros temas
[Pplware - Portugal] "Freedom.gov": o portal dos EUA para expor conteúdos alegadamente banidos na Europa
[Olhar Digital - Brasil] Desinformação médica online é rara, mas idosos concentram a maior exposição
[SAPO - Portugal] Festival de Berlim rejeita acusação de estar a censurar opiniões sobre Gaza
[Novo Jornal - Angola] Sociedade civil vai convocar manifestações para tentar convencer PR a não promulgar nova lei das organizações não-governamentais já aprovada pelo parlamento
[UOL / Agência Estado - Brasil] Justiça manda filiado do PT apagar posts nas redes que associam Flávio Bolsonaro ao nazismo
[RTP Notícias - Portugal] Arranca centro da UE para reforçar combate à desinformação e ingerências externas
📱Um post numa rede social
Sobre cheias, jornalismo e, de certa forma, apagões informativos. Ver o post original aqui.
👓Leitura longa
A indústria criativa poderá perder até 24% das receitas globais por causa da inteligência artificial. É esta a principal conclusão de um novo relatório da UNESCO sobre o futuro das políticas de criatividade, com base em dados recolhidos em mais de 120 países.
O estudo “Re-Shaping Policies for Creativity” analisa de que forma a transformação digital, o crescimento da IA e mudanças no comércio global e riscos à liberdade artística estão a transformar o panorama das indústrias culturais e criativas no mundo.
📅Agenda
O Centro de Inovação Carlos Fiolhais (CICF), na Maia, Portugal, promove, esta quinta-feira, 26, às 18h00, uma nova sessão do ciclo Talks & Meetups. O tema “Jornalismo na era digital – entre a verdade e a desinformação” será desenvolvido pelo jornalista Carlos Daniel.
No Brasil, nos dias 27 e 28 de abril de 2026, será realizado, em formato online, o SIJEM 2026 – Simpósio Internacional de Jornalismo e Educação Midiática, que terá como tema “Cidadania e democracia na era das plataformas e da inteligência artificial”. O evento reunirá pesquisadores, jornalistas, profissionais do audiovisual, educadores e organizações de media para discutir como o jornalismo e a educação mediática, com o apoio do audiovisual, podem articular-se para enfrentar os desafios digitais contemporâneos e construir caminhos para uma cidadania crítica.
📝Post Scriptum
Cento e vinte e nove jornalistas e profissionais de media foram mortos em 2025, de acordo com o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Após 124 mortes em 2024, 2025, marca o segundo recorde anual consecutivo nos 30 anos em que o CPJ mantém a contagem.
Todos os seres humanos têm direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
Artigo 19º, Declaração Universal dos Direitos Humanos
Editor Dia de Fecho: Nuno Andrade Ferreira. Se quiser falar comigo, clique aqui.
Política de utilização de IA: Revisão e sistematização, geração de imagens e versão áudio | LLM usados: ChatGPT 5.2., Gemini 3




