[#12] No limite do imediato
Entre a banalização do direto, a violência contra jornalistas e a amplificação do ódio e da desinformação, o espaço público enfrenta novas pressões.
🖊️Bloco de Notas | O direto. O direto é a promessa de vermos a história a acontecer no exato momento em que acontece. O jornalista no terreno, o microfone aberto.
Algures pelo caminho, porém, transformámos a ferramenta única e extraordinária num vício e numa muleta. No jornalismo televisivo, o direto deixou de ser um recurso e transformou-se num fim em si mesmo.
O caso das recentes cheias em Portugal é um exemplo de tantos. O direto começou por cumprir a sua missão, alertando para perigos, mostrando caminhos cortados e documentando sofrimento e solidariedade. Mas logo passámos a assistir ao espetáculo low cost do exagero sem fim. Se um canal entra no ar, os outros seguem atrás por medo do vazio.
A cultura do direto permanente transformou as redações em máquinas de reação instintiva, longe da verificação e da ponderação - que têm de ser o centro do ofício. O que aconteceu, nestas semanas, nas cheias em Portugal, acontece diariamente em muitos outros espaços, com outros pretextos.
Se tudo é urgente, nada é verdadeiramente prioritário. O jornalismo não pode ser apenas mostrar, tem de servir para traduzir. Não é apenas estar, tem de ser consequente com a presença. O direto é uma ferramenta poderosa, mas a sua banalização subtrai muito mais do que acrescenta.

Sem tempo ou paciência para ler? Pode ouvir.
🎧 Opção 1: Uma análise detalhada dos temas da edição, através da conversa entre dois anfitriões virtuais, que explora e relaciona temas.
🎧 Opção 2: Um resumo breve com os principais tópicos.
As versões áudio são geradas automaticamente por IA, através do serviço NotebookLM, suportado por Gemini. A IA pode cometer erros. Verifique informações importantes.
Moçambique | jornalismo
Atentado contra jornalista reacende alertas sobre segurança da imprensa em Moçambique
O jornalista moçambicano Carlitos Cadangue, correspondente da STV no centro do país, foi alvo de uma tentativa de assassínio na cidade de Chimoio, província de Manica. Tudo aconteceu dia 4, quando Cadangue regressava a casa com o filho. A viatura em que se deslocava foi atingida por vários disparos por indivíduos armados. Nenhum dos dois sofreu ferimentos graves. A polícia abriu um processo.
O Presidente da República, Daniel Chapo, condenou o atentado e exigiu que as autoridades esclareçam o caso.
“Somos um país onde a Liberdade de Imprensa deve prevalecer e continuaremos a lutar firmemente contra o crime organizado, que não tem como triunfar no nosso País. O medo e a insegurança são inimigos da liberdade, da democracia e do desenvolvimento” - Daniel Chapo
Organizações da sociedade civil e de direitos humanos também qualificaram o ataque como uma grave violação da liberdade de imprensa e do direito à informação, apelando a uma investigação célere, independente e transparente.
O Grupo SOICO, proprietária da STV, repudiou o atentado e pediu que se apurem responsabilidades. Cadangue cobria questões sensíveis, incluindo relatos sobre mineração ilegal e os seus impactos sociais e ambientais.
📚Fontes/ler mais:
[O País] Provedor de Justiça quer mais segurança para profissionais da comunicação social
[RFI] Moçambique: jornalista escapa a tentativa de assassinato
[O País] PR exige esclarecimento do atentado contra Carlitos Cadangue
[Amnistia Internacional] Moçambique deve investigar tentativa de homicídio do jornalista Carlitos Cadangue
Guiné-Bissau | jornalismo
Liga Guineense dos Direitos Humanos pede menos taxas e mais apoios para órgãos de comunicação social
O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Bubacar Turé, afirmou esta terça-feira (11) que o jornalismo é um pilar essencial das sociedades democráticas. Durante a cerimónia de entrega do Prémio Jornalismo e Direitos Humanos, Turé lamentou que os profissionais da comunicação sejam muitas vezes ignorados, apesar da sua contribuição decisiva para a defesa da dignidade humana, da liberdade de expressão e do direito à informação.
Turé apela ao Governo da Guiné-Bissau a que reduza ou isente os valores das taxas de concessão e de licenciamento para órgãos de comunicação social.
O presidente da Liga defende a institucionalização de mecanismos de subvenção pública que promovam a sustentabilidade e independência dos órgãos de comunicação social.
“A imprensa assume um papel absolutamente central: esclarecer a verdade, promover o pensamento crítico e garantir o direito dos cidadãos a uma informação rigorosa, plural e independente” - Bubacar Turé
No seu discurso, Turé sublinhou a crise global da democracia, acentuada pela desinformação, que mina a confiança pública e fragiliza o debate democrático.
📚Fontes/ler mais:
[O Democrata GB] Presidente da Liga pede governo a reduzir taxas de concessão e de licenciamento de imprensa
[Casa dos Direitos] Vencedores do Prémio de Jornalismo de Direitos Humanos
Portugal | discurso de ódio
Algoritmos, crise e polarização alimentam crescimento do discurso de ódio
O discurso de ódio está a crescer e tende a intensificar-se em períodos eleitorais. Em entrevista ao portal SAPO, a psicóloga social Rita Guerra, investigadora do CIS-ISCTE, explica que o fenómeno resulta de fatores individuais, psicossociais e societais. Há enviesamentos cognitivos que nos prendem à informação negativa, algoritmos que exploram essa tendência e contextos de crise que favorecem visões polarizadas do mundo, baseadas na lógica do “nós contra eles”.
Segundo a investigadora, o discurso de ódio não é novo, mas as redes sociais amplificaram processos históricos de desumanização de grupos minoritários. A repetição de narrativas hostis e a sua legitimação por atores com autoridade social contribuem para a normalização da discriminação.
“Nós vivemos num mundo global e a verdade é que o ódio e esta normalização do ódio também se vai globalizando (…). Os líderes populistas ou movimentos de extrema-direita vão mimicando e utilizando estratégias similares, numa espécie de internacionalização destes fenómenos” - Rita Guerra
Para travar o fenómeno, Rita Guerra defende respostas legais eficazes, maior responsabilização das plataformas digitais, articulação institucional e investimento em educação para os direitos humanos e literacia mediática.
📚Fontes/ler mais:
Brasil | inteligência artificial
IA consolida-se como arma política
A divulgação de conteúdos falsos criados com inteligência artificial (IA) no Brasil registou um crescimento de 308% entre 2024 e 2025, de acordo com o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, elaborado pelo Observatório Lupa. O estudo, que analisou qualitativa e quantitativamente 617 conteúdos verificados em 2025, revela que as peças de desinformação geradas por IA, como deepfakes, passaram de 39 casos (4,6% do total) para 159 (25% das verificações) no espaço de um ano.
A investigação aponta para uma mudança estrutural no ecossistema de desinformação: enquanto em 2024 a tecnologia era utilizada maioritariamente para golpes digitais e fraudes comerciais com figuras públicas, em 2025 a IA consolidou-se como ferramenta política. Quase 45% dos conteúdos falsos gerados por esta via apresentavam viés ideológico. Mais de três quartos exploraram a imagem ou a voz de lideranças políticas, tendo como principais alvos o presidente Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
O levantamento indica uma maior dispersão entre plataformas.
📚Fontes/ler mais:
[Agência Brasil] Conteúdos falsos criados com IA mais que triplicam entre 2024 e 2025
I Panorama da Desinformação no Brasil: padrões, estratégias e impacto
Brasil | desinformação
Chatbot desenvolvido por estudantes ajuda a combater desinformação
Três alunos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um sistema de verificação de factos via WhatsApp que utiliza inteligência artificial multimodal. Intitulado “Tá certo isso AI?”, o chatbot é capaz de analisar textos, áudios, vídeos e imagens, cruzando as informações com uma curadoria de fontes fidedignas. O projeto foi o vencedor do Programa AI4Good, um desafio da Brazil Conference.
A ferramenta funciona tanto em conversas privadas como em grupos, permitindo que qualquer utilizador verifique a veracidade de um conteúdo de forma simplificada. Além da verificação direta, o sistema opera uma plataforma de analytics que monitoriza tendências de desinformação em tempo real, fornecendo dados para jornalistas e investigadores.
📚Fontes/ler mais:
[Jornal da USP] Chatbot contra desinformação criado por alunos da USP vence desafio internacional de IA
🔗Outros temas
[Agência de Notícias do Acre - Brasil] Inteligência artificial, desinformação e democracia: desafios para a comunicação pública no ambiente digital
[Sul Informação - Portugal] Biblioteca Municipal de Loulé Sophia de Mello Breyner na luta contra a desinformação
[SEGS - Brasil] Dia da Internet Segura 2026: Brasil registra alta de 126% em fraudes com deepfakes e lidera ataques na América Latina
[Fast Company - Brasil] OpenAI e Anthropic disputam o futuro da IA – com ou sem anúncios
📱Um post numa rede social
A propósito dos despedimentos no Washington Post. Ver o post original aqui.
👓Leitura longa
Num mundo dominado por fluxos digitais, a rádio reafirma-se como uma ferramenta de sobrevivência e inclusão. Entre o avanço da inteligência artificial e a necessidade de preservar a empatia humana no jornalismo, o meio celebra esta sexta-feira, 13, o seu Dia Mundial. Um elo resiliente contra a desinformação e o isolamento global.
📅Agenda
Na Cidade da Praia, em Cabo Verde, está patente a exposição “Liberdades”, do artista cabo-verdiano Sidney Cerqueira. A mostra pode ser vista na Galeria de Arte Tutu Sousa e reúne um conjunto de obras que refletem sobre o conceito de liberdade nas suas múltiplas vertentes, com destaque para a liberdade de expressão, os direitos humanos e as lutas coletivas por dignidade, justiça e emancipação.
Webinar “Forçadas a desistir: desinformação de género, abuso sintético e violência política”. As mulheres estão a ser empurradas para fora da vida pública através de campanhas coordenadas de desinformação de género e assédio que combinam, cada vez mais, formas tradicionais de abuso com conteúdos multimédia e sintéticos. Marília Gehrke, da Universidade de Groningen, explica o “triângulo da violência”, examinando a relação entre conteúdos, vítimas e audiências, demonstrando como a desinformação de género funciona como um sistema sustentado e não como um conjunto de incidentes isolados.
📝Post Scriptum
A jornalista Luísa Meireles foi eleita presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) de Portugal. Licenciada em Direito e atual diretora de informação da agência Lusa, cargo que manterá em acumulação, Meireles definiu como prioridade garantir que os jornalistas tenham voz ativa no processo de revisão geral da legislação da comunicação social, que o Governo pretende unificar no futuro Código da Comunicação Social.
Todos os seres humanos têm direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
Artigo 19º, Declaração Universal dos Direitos Humanos
Editor Dia de Fecho: Nuno Andrade Ferreira. Se quiser falar comigo, clique aqui.
Política de utilização de IA: Elaboração de sínteses, revisão de textos, geração de imagens e versão áudio | LLM usados: ChatGPT 5.2., Gemini 3



